Terra Maronesa: pastorícia extensiva, sustentabilidade ambiental e bem-estar animal

Homens e bovinos mantêm uma relação ecológica mutualista milenar, desde as primeiras etapas da invenção da agricultura, faz mais de 10 500 anos. O auroque – o boi selvagem ancestral representado nas gravuras de Foz Côa –, entretanto extinto, sobrevive no genoma dos bovinos atuais.

No sistema extensivo maronês, os bovinos deambulam livremente (não estão fechados em alojamentos), e vivem do que o monte ou a agricultura lhes dá (palhas, feno, grãos e raízes). Mantêm, por isso, os comportamentos alimentares, de manada, reprodutivos (ex. cobrição, parto e amamentação) ou de defesa do ancestral selvagem. E graças à perturbação pela herbivoria (pastoreio), está garantida a persistência das plantas que coevoluiram com os bovídeos que migraram para ocidente, vindos das planícies asiáticas a norte dos Himalaias, cerca de 15 milhões anos antes do presente. As escassas representações disponíveis mostram uma surpreendente similaridade morfológica entre o auroque e a Maronesa.

Eliminem-se as raças bovinas, caprinas e ovinas, e os montes arderão com mais violência ainda. Homens, habitações, animais selvagens e plantas estarão em perigo. Por outro lado, regimes de fogo de elevada intensidade e curto ciclo de recorrência traduzem-se em baixos stocks de carbono do solo, e na substituição das tais plantas dependentes do pastoreio por um punhado de espécies de baixa produtividade, desinteressantes do ponto de vista florístico. Paisagens vegetais monótonas são naturalmente pouco diversas em espécies animais.

Com os bovinos a pastar na montanha sucede o inverso. Os fogos são menos intensos e mais espaçados no tempo porque se acumula menos biomassa lenhosa e é do interesse dos criadores adotar técnicas de fogo controlado. Consequentemente, há mais carbono armazenado no solo, maior diversidade de espécies de plantas e ecossistemas (diversidade alfa e beta), maior produtividade forrageira (dominam as plantas herbáceas perenes), maior densidade e diversidade de espécies animais, e mais água a correr nos rios que abastecem as grandes cidades no verão.

Portugal é um país de vocação pastoril e, por isso, tão diverso em raças autóctones de mamíferos herbívoros domesticados. A solução encontrada pelos nossos antepassados para usar e gerir o seu território, foi e é uma solução com futuro, com milénios de experimentação bem-sucedida. Por conseguinte, a pastorícia extensiva é um instrumento indispensável para conter a atual escalada de custos financeiros e sociais associados aos fogos rurais.

A pastorícia extensiva tem efeitos (externalidades) ambientalmente positivos, e o bem-estar animal dos animais em extensivo não tem equivalente, quer entre os animais de companhia quer noutras espécies de herbívoros domésticos. Como explicar, então, o ambiente adverso criado em torno da produção animal, quer junto do grande público, quer a nível político? Se é necessário recuperar a pastorícia extensiva por que razão está prevista uma redução acentuada do financiamento do segundo pilar da PAC? Como explicar o esvaziamento de competência da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, e a recente transferência de competências sobre os animais de companhia do ministério da agricultura para o ministério do ambiente?

A carne maronesa acabou de ser eleita a melhor carne do mundo, num concurso oficioso organizado pelo «FISTERRA BOVINE WORLD» – um galardão que honra uma raça, um sistema de produção e todos os criadores que lutam pela sobrevivência da pastorícia extensiva de montanha. Os bovinos Maroneses em extensivo não consomem subprodutos animais, são livres de expressar os seus comportamentos inatos, e produzem, graciosamente, serviços ambientais indispensáveis para as sociedades humanas. É tempo de o reconhecer. Para tal basta que o público seja informado de modo a tomar decisões de consumo ambientalmente responsáveis, e que o processo de decisão política em agricultura e ambiente seja cientificamente fundamentado … e que a produção animal extensiva seja considerada em toda a sua grandeza agronómica, ambiental e económica.

A comunidade “Terra Maronesa”

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